A Dona da Noite - Capítulo 1
A Dona da Noite
Capítulo 1
O Encontro
Paris, França, século XXI, a sala estava impregnada por um cheiro agridoce de incenso queimado misturado ao odor metálico de ferro oxidado.
O escritor e pastor norte - americano Elias Montgomery, 30 anos, respirava fundo, tentando não demonstrar o desconforto. Tinha escolhido aquele café parisiense de teto baixo e luz mortiça porque, segundo o contato anônimo que recebera em seu telefone, ali encontraria o tema de sua vida — a história fantástica, mas real, que nenhum outro ousaria registrar.
Quando a porta se abriu, uma lufada de ar frio atravessou o recinto, apagando parcialmente uma vela sobre o balcão. Ela entrou.
Emma Valcourt. Os cabelos loiros, encaracolados, caíam sobre os ombros com um movimento quase líquido. O rosto, de uma juventude petrificada nos seus supostos vinte e três anos, não denunciava as décadas — ou séculos — que já carregava. Havia algo no brilho úmido dos olhos que oscilava entre candura e crueldade.
— É o Pastor Montgomery? — perguntou ela, num francês sussurrado, embora o inglês do estrangeiro a denunciasse.
Ele assentiu, engolindo em seco. O calor humano parecia diminuir à medida que ela se aproximava, como se a presença dela sugasse da sala não apenas a luz, mas também o oxigênio.
Sentou-se diante dele. O leve atrito do vestido contra a cadeira de madeira ecoou como se fosse o único som do mundo. Ele percebeu que, por um instante, tudo parara. Os outros clientes, o tilintar dos copos, o barulho da rua — tudo silenciara.
Emma sorriu. Era um sorriso contido, perigoso, carregado de promessas e ameaças.
— Quer ouvir uma história, pastor? — disse ela. — Então escreva. Mas saiba que cada palavra que registrar trará consigo o peso da minha culpa e o sabor do meu sangue.
Ele abriu seu caderno de anotações. As mãos tremiam. Emma inclinou-se sobre a mesa, e o perfume que exalava não era humano — uma mistura perturbadora de terra molhada, flores recém-cortadas e algo mais, um odor que lembrava carne recém-decapitada.
— Começo pelo princípio — murmurou ela. — Pela noite em que deixei de ser apenas uma filha órfã da Revolução e me tornei algo… mais.
Fez-se uma pausa. E ela continuou:
— Eu sou uma assassina — confessou ela. — Mas sempre houve um dilema em mim. Cada nobre que devorava era um pedaço de justiça. Cada camponês inocente que sucumbia à minha sede era um pedaço de condenação.
Ela apoiou o queixo sobre as mãos delicadas, olhando-o como se sondasse sua alma.
— Antes do amanhecer, aprendi a me dissolver em sombra. Uma sombra veloz, quase invisível, que rastejava pelos muros, passava sob portas, infiltrava-se nos tetos. Somente assim o sol não me destruía. Mas para isso… — ela se inclinou ainda mais, e sua voz foi um sussurro no ouvido de Elias — …precisava de sangue. Duas ou três vítimas por noite, ou minha sombra não resistiria à aurora.
Ele sentiu a pele arrepiar. O coração acelerou, como se Emma pudesse ouvi-lo bater dentro do peito.
— Quer saber como vivo até hoje? — perguntou ela, erguendo uma sobrancelha. — Quer que eu lhe mostre o que faço quando a fome me consome?
Sem esperar resposta, Emma levantou-se. Num movimento fluido, atravessou o café e abriu a porta. A noite engoliu-a.
O pastor e escritor, tomado por uma mistura de medo e fascínio, levantou-se e a seguiu. Do lado de fora, Paris pulsava em luzes e ruídos. Mas Emma já não era visível.
Até que um grito rasgou a rua lateral.
Elias correu.
Ali, numa viela, viu Emma em ação: veloz como sombra, desviando de golpes de um homem armado com uma lâmina. Com uma sequência quase coreografada, ela empunhou duas adagas que não sabia de onde surgiram. O brilho metálico cortou o ar, e o homem tombou. Antes que o sangue esfriasse, Emma cravou os dentes no pescoço dele.
Elias estremeceu. A cena tinha a beleza horrível de uma dança.
Emma levantou o rosto ensanguentado, fitando-o.
— Ainda quer escrever a minha história, pastor? — perguntou, num tom que misturava ameaça e convite.
— Procurando manter a serenidade, ele disse:
— Sim. É o que combinamos.
— Ela ajeitou com um certo charme os cabelos loiros e cacheados. Sua beleza era estonteante. Com um sorriso misterioso, alertou:
— Sabe muito bem que pode se tornar uma vítima, pastor?
Ele inspirou sentindo o ar adentrar nos pulmões. Depois expirou calmamente. E respondeu:
— Minha missão, Emma, é cumprir os propósitos de Deus.
Ema não se conteve e riu. Depois com um tom sarcástico, disse:
— Deus?...
— Sim.
Ela se irritou um pouco, mas não deixou transparecer.
— Seu propósito, pastor é apenas servir aos meus propósitos.
— Tenho certeza que não.
Os olhos de ambos se fixaram durante quase um minuto que pareceu ser uma eternidade. Emma era uma imortal poderosa, mas se sentia perturbada diante da ousadia do pastor. Ela podia facilmente matá-lo e se alimentar no sangue de mais um mortal. Mas, ao mesmo tempo que se sentia desafiada, começava a surgir uma admiração por ele. E o jogo só estava começando. Ela sorriu com extrema simpatia para deixá-lo mais à vontade.
— Não tema, pastor, só preciso de alguém para ouvir a minha história. E escolhi o Sr.
O café desapareceu, Elias mergulhou nas palavras de Emma e se viu transportado a uma floresta escura, úmida, próxima a Versalhes.
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