A Dona da Noite - Capítulo 2

 


Capítulo 2 

A Juventude e o Massacre


A memória tem cheiro. Quando penso na juventude, é uma mistura de cera derretida das velas que iluminavam a casa modesta, do pão assado pela minha mãe nas manhãs frias e do couro úmido das botas do meu pai, sempre marcadas pela poeira das ruas revolucionárias.

Eu ainda era uma jovem de quase dezessete anos quando meu pai me levou, pela primeira vez, a uma reunião secreta de revolucionários. O porão estava carregado de fumaça de lamparina e do suor dos homens que, enraivecidos, gritavam contra os privilégios da nobreza. Eu ouvia fascinada. Sentia que algo imenso estava prestes a explodir.

Aos poucos, aprendi a manejar pequenas adagas que meu pai escondia sob o colchão. “Um dia, filha, você precisará se defender”, dizia ele. O aço frio em minhas mãos delicadas era ao mesmo tempo estranho e reconfortante.

Mas naquela noite fatal de 1791, minha juventude terminaria.

Era inverno. O vento cortava as frestas da janela, trazendo o cheiro de fumaça distante das barricadas. Eu dormia quando o estalo da porta arrebentada me despertou. Meu coração disparou. Um grito abafado de minha mãe ecoou pelo quarto.


Soldados.


O som das botas pesadas subia pelas escadas de madeira como trovões, agarrei minhas adagas que eu mantinha sob o travesseiro. Minhas mãos suavam, escorregadias.

O primeiro soldado arrombou a porta, eu o golpeei instintivamente, rasgando-lhe o braço. O cheiro quente de sangue fresco inundou o quarto. O homem rugiu de dor e me empurrou contra a parede. A madeira rachou sob o impacto.

Meu pai apareceu com um mosquete, disparando à queima-roupa. O estampido ensurdeceu a todos. O soldado caiu, mas outros três já subiam, gritando palavras de ordem contra “os cães da revolução”.

Escorreguei no piso molhado pelo sangue que escorria do soldado abatido. O sabor metálico invadiu minha boca quando mordi meu lábio ao cair.

A luta tornou-se um caos.

Mosquetes eram erguidos, baionetas tilintavam, móveis eram derrubados. Meu pai, valente, avançou contra um soldado, mas foi atravessado pela lâmina que entrou em seu peito com um som úmido e desesperador. Gritei assustada com a cena. O cheiro de ferro queimado da ferida misturou-se ao suor ácido de meu querido pai.

Com a força do desespero, eu lutava para proteger minha mãe. Ela estava em pânico. Agarrei um ferro de brasa ainda incandescente da lareira e atingi o rosto de um dos homens. O odor de carne queimada espalhou-se pela sala. O soldado uivou, mas outro segurou minha mãe por trás. 

Jamais esqueci o som que veio a seguir: o estalo seco do pescoço de minha mãe sendo quebrado como um galho frágil.

Tentei lutar, mas braços de ferro me contiveram. O último que ainda comandava os soldados — um homem de capa vermelha e voz fria — inclinou-se. Tinha o hálito carregado de vinho barato.

— O preço da rebeldia é a morte — murmurou ele. — Que todos vejam o que acontece com quem desafia a coroa.

Esperneei, mordi, arranhei. Foi em vão. Virei o rosto apenas para ver os corpos dos meus pais sendo arrastados para fora, como sacos de lixo.

O frio da noite engoliu o cenário. Tochas iluminavam a rua. Diante dos vizinhos forçados a assistir, os soldados penduraram os corpos pelos pés em um poste, para que servisse de aviso.

O sangue escorria, pingando no chão gelado, como um relógio macabro marcando os últimos segundos da vida que eu conhecera.

Eu consegui escapar na confusão, correndo pela escuridão, o gosto salgado das lágrimas misturado ao do sangue no canto da boca. Meus pés cortavam-se nas pedras, mas eu não parava. Corria com o vento, com a dor, com o ódio.

E foi na floresta, sozinha, envolta pelo cheiro de musgo e terra molhada, que desabei. A neve caía, cobrindo minhas roupas ensanguentadas.

Naquele silêncio absoluto, senti o vazio. Eu me senti morta, mesmo respirando.

Mas algo se moveu entre as árvores. Uma presença. Passos leves demais para serem soldados. Olhos que brilhavam como lâminas na penumbra.

E ali, na solidão do bosque, encontrei o estranho que mudaria tudo.

"Obs: Clique no link em azul para acessar uma página exclusiva na qual serão postados os links de todos os capítulos".

Página de links


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

BONECAS DE FUXICO...olha fiz algumas bonequinhas e tem o moldeEEEEEEE!!!!

The Lady of the Night – Chapter 1

como descobrir o que significa codigo de barra...vamos ver como e: