A Dona da Noite - Capítulo 3

 



Capítulo 3 

O Estranho e a Proposta


A floresta era um corpo vivo. Cada árvore exalava um hálito úmido, cada galho estalava como ossos velhos.  Eu corria entre as sombras, mas já não sabia se fugia ou se buscava algo. O frio mordia a minha pele, e as lágrimas congelavam-me o rosto.

Foi então que o senti.

Primeiro, o som: passos leves, quase inaudíveis, como se as folhas se curvassem para recebê-lo. Depois, o cheiro: não era suor nem terra, mas um perfume de especiarias e ferro. Por fim, a visão: um vulto emergindo da penumbra, alto, com a postura de um príncipe exilado.

Os olhos dele eram de um azul impossível, tão profundo que pareciam engolir a alma, refletindo neles a tênue luminosidade da lua cheia.

— Emma Valcourt… — a voz soou grave, e como poderia ele saber meu nome? — A morte roubou tudo de você. Mas eu posso lhe devolver.

Recuei, instintivamente agarrando a adaga que ainda trazia comigo.

— Quem é você? — sussurrei, a respiração formando nuvens de vapor.

O estranho sorriu. E o sorriso tinha algo de belo e horrendo ao mesmo tempo.

— Um amigo. Um vingador. Um libertador. 

Ele avançou, tentei golpeá-lo. A lâmina riscou o ar, mas ele desapareceu diante de meus olhos, como se fosse feito de névoa. Em seguida, surgiu atrás de mim, a voz roçando em  meu ouvido:

— Você não precisa mais ser fraca.

Girei, apavorada

— O que você quer de mim?

Ele abriu os braços, o manto oscilando como asas negras.

— Apenas que aceite o que é inevitável. A morte é o fim dos mortais, mas pode ser o começo dos escolhidos. Eu lhe darei o poder de se vingar dos assassinos de seus pais. Mais que isso: riquezas, juventude eterna, sentidos que os homens jamais conheceram.

Eu senti a garganta apertar. O sangue dos pais ainda manchava meu vestido. O ódio queimava como brasa.

— E o que devo dar em troca?

Ele inclinou a cabeça, o olhar faiscando.

— O que você já perdeu. Sua alma.

O silêncio da floresta foi rompido por um grito distante — talvez de algum camponês, talvez apenas um eco.  Fechei os olhos. Imagens de minha mãe e de meu pai voltaram- me à mente. O gosto amargo da impotência tomou-me a boca.

Quando abri os olhos, respondi:

— Eu aceito.

O sorriso dele se alargou.

Num movimento súbito, agarrou-me pelo pescoço. O frio das mãos dele queimava como gelo. Tentei reagir, mas os olhos dele me hipnotizavam.

E então veio a dor.

Os dentes perfuraram-me a pele como punhais incandescentes. O sangue jorrou, pulsando, sendo sugado com violência. Gritei, mas o som se perdeu no vento. O coração acelerou, depois começou a falhar, cada batida mais distante que a anterior.

Eu sentia a vida escorrer, e junto com ela, todas as lembranças. O cheiro de pão da infância, o calor das mãos da mãe, o riso do pai — tudo se dissolvia. Restava apenas o gosto metálico, avassalador, do próprio sangue.

Mas então, algo mudou. O estranho mordeu o próprio pulso e pressionou contra a minha boca. O líquido grosso, mais espesso que o vinho, penetrou-me a garganta. A princípio, queria cuspir, mas logo veio o calor. Um calor que não era humano. Cada fibra do meu corpo parecia se incendiar.

Meus ossos estalaram, como se estivessem se organizando. Meus músculos se expandiram. A visão clareou: eu enxergava a poeira suspensa no ar, os fios de neve cortados pelo vento. O som do coração de um coelho distante batia como tambor em minha mente.

 Cai de joelhos, arquejando. As mãos cravaram-se na terra, sentindo cada inseto rastejar sob o solo.

— Levante-se — ordenou o estranho.

Ergui o rosto. Minha boca ainda sangrava, mas meus olhos agora brilhavam em vermelho escarlate.

— Bem-vinda, filha da noite.

A primeira prova veio logo em seguida.

Dois soldados, talvez caçadores perdidos, surgiram na borda da floresta com tochas. O cheiro de suor, de couro e de vinho chegou a mim como uma onda irresistível.

Antes mesmo de pensar, eu me lancei contra eles. Os movimentos eram velozes, quase invisíveis. Desviei-me da lâmina de um mosquete, agarrei o homem pela garganta e o atirei contra uma árvore, quebrando-lhe a coluna com um estalo grotesco.

O outro tentou correr, mas eu já estava sobre ele. Os dentes cravaram-se no pescoço. O sangue invadiu minha boca, quente e doce como néctar amaldiçoado. A sensação era avassaladora: cada gole fazia o mundo tremer de prazer.

Mas então o mentor entregou-me a adaga.

— Termine.

Ainda embriagada pelo sangue, hesitei. O soldado agonizava.

— Se não o degolar, ele despertará como você. — A voz do estranho era cortante. — E caçadores virão.

Com um só golpe, eu passei a lâmina. O sangue jorrou em arco, respingando-lhe no rosto. Fechei os olhos, sentindo a chuva quente escorrer pela pele.

Ali, na neve tingida de vermelho, eu, Emma Valcourt, deixei de ser apenas uma órfã. Tornei-me uma caçadora.

E no fundo da mente, uma chama de culpa já começava a se acender.

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