A Dona Da Noite - Capítulo 6
A Dona da Noite
Capítulo 6
A Caçada dos Caçadores
A madrugada tinha um gosto metálico, como se o próprio ar estivesse impregnado de ferro e ferrugem.
Ainda excitada pelo massacre, sentia cada nervo vibrar com a energia roubada dos soldados. Meus olhos captavam tudo — a lua filtrada pelas nuvens pesadas, a dança espectral das folhas, o reflexo prateado das poças de sangue que ainda escorriam pelo vilarejo.
O silêncio parecia absoluto, mas percebia nuances. O arranhar distante de botas contra pedras. O estalar de couro de cinturões. O tilintar discreto de ferro contra ferro.
Eles vinham.
O cerco
Eram quatro homens, encapuzados, cada um portando uma cruz de ferro, estacas afiadas e frascos com líquido viscoso — óleo inflamável. O cheiro chegou primeiro: um misto de enxofre e pólvora.
Eu os observava do alto de uma sacada quebrada.
Minha visão ampliada captava cada detalhe: o suor descendo em gotas grossas pelo rosto de um dos homens, refletindo a luz da tocha; o fio de medo escondido em seus olhos.
Eles sabiam. Tinham ouvido histórias.
E agora caçavam a besta.
A primeira investida
Um deles ergueu a tocha e gritou:
— Criatura do inferno, mostre-se!
Não resisti.
Saltei como sombra, dissolvendo-me no ar, e reapareci atrás do homem. O calor da chama queimou minha pele por um instante — eu senti o choque, o ardor, como ferro em brasa contra a carne. Mas isso só me irritou.
Minha espada riscou o ar como um trovão. O corpo foi dividido do ombro à cintura. As vísceras quentes escorreram, caindo no chão em borbotões de vermelho brilhante. O cheiro de sangue fresco invadiu o vilarejo, denso, adocicado, embriagante.
Os outros recuaram, formando um círculo.
O combate
Flechas encharcadas em óleo foram disparadas. Eu me dissolvi em sombra, um borrão que escapava à percepção humana.
Reapareci ao lado do arqueiro, arrancando-lhe a garganta com as unhas afiadas. O sangue jorrou como uma fonte, respingando em seu rosto.
Eu lambi, saboreando. Quente. Salgado. Vivo.
O terceiro caçador avançou com uma espada longa. A lâmina faiscou à luz da lua, cortando o ar com violência. Eu me desviei, sentindo a lâmina rasgar de leve minha pele, uma linha fina, ardente.
Eu ri.
O gosto do próprio sangue em meus lábios me parecia excitante, quase afrodisíaco.
Com um giro elegante, ergui a adaga e cravei no coração do homem. O som seco da lâmina partindo costelas ecoou como música dissonante. O corpo estremeceu e tombou.
O último caçador
Restava apenas um. O mais velho, de barba espessa, olhos negros como carvão.
Ele não recuou.
Do manto retirou uma corrente grossa de ferro com pontas em brasa. O cheiro de ferro queimado tomou o ar.
Senti a ameaça antes mesmo do ataque.
Quando a corrente estalou no ar, percebi o risco: ferro incandescente podia dilacerar até a forma sombria.
A batalha tornou-se frenética.
Correntes zuniam no ar, arrancando faíscas das paredes de pedra. Eu me movia entre sombras, veloz como um raio. O cheiro de queimado, o som das pedras rachando, a luz intermitente das fagulhas — tudo criava um espetáculo quase hipnótico.
Finalmente, eu encontrei a brecha.
Eu me transformei em sombra por uma fração de segundo, atravessei o círculo de fogo, e voltei à forma humana atrás do homem.
Meu hálito tocou o pescoço dele. O caçador tremeu.
— Maldita… — murmurou antes que a lâmina de minha adaga o degolasse com precisão cruel.
O corpo tombou.
A cabeça rolou pela rua, olhos ainda arregalados de ódio.
O silêncio e o vazio
Fiquei ali, entre os corpos retorcidos.
O sangue escorria em rios finos pelas pedras do chão, refletindo a lua como espelhos quebrados. O cheiro denso era intoxicante: ferro, fumaça, carne queimada.
Eu senti o prazer da vitória, mas também o vazio depois do banquete.
Um arrepio percorreu minha espinha.
Não era medo. Não era alegria.
Era o pressentimento de que, quanto mais matava, mais distante ficava da jovem de 23 anos que um dia fora.
Por um instante, ergui os olhos para a lua e sussurrei, quase como uma prece:
— Pai... mãe... vocês me reconheceriam agora?
O vento soprou, carregando o cheiro doce da carnificina.
Eu fiquei em silêncio, me dissolvi em sombra e desapareci na noite.
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