A Dona da Noite - Capítulo 7
Obs: Caro leitor, se você ainda não leu os capítulos anteriores, é só clicar no link em azul para acessar a página de links.
A Dona da Noite
Capítulo 7
A Promessa do Mentor
O vento da madrugada soprava frio pelas ruínas do vilarejo. O silêncio após a matança parecia mais denso que o próprio sangue que escorria entre as pedras.
Eu, ainda na forma de sombra, descansava no alto de um campanário quebrado, observando o horizonte. A lua se despedia lentamente, e com ela vinha o perigo do amanhecer.
Eu não tinha medo do sol, não exatamente.
Sabia como se dissolver em sombra, como escorrer pelas frestas do mundo, mas a cada dia que passava nessa forma, sentia uma estranha angústia: era como se minha alma fosse sugada junto com a luz. Como se o dia me lembrasse de que já não era feita para pertencer ao mundo humano.
Foi então que ele apareceu.
O Mentor
Do nevoeiro espesso, surgiu o homem que me transformou.
Tinha a beleza congelada de uma estátua, pele de mármore, olhos de um azul indescritível. Seu sorriso era ao mesmo tempo encantador e cruel.
— Vejo que já aprendeu a dançar com a morte — disse ele, com voz grave, que parecia ecoar dentro da minha cabeça.
Eu o fitei com desconfiança.
— Quatro caçadores não foram páreo para mim. Mas o gosto da vitória é… vazio.
Ele se aproximou lentamente, suas botas não faziam som sobre as pedras molhadas.
— Vazio? Não, minha querida. Esse é o gosto da eternidade. O prazer momentâneo do sangue nunca basta, porque você não nasceu para saciar-se. Você nasceu para transcender.
Eu franzi o cenho.
— Transcender? Eu só queria vingança pelos meus pais.
O sorriso dele se ampliou, frio e paciente.
— A vingança é apenas a porta de entrada.
Pequena, estreita, como o corredor de uma prisão. Mas eu lhe ofereço mais: poder, riqueza, uma causa que dará sentido à sua eternidade.
O diálogo filosófico
Eu abaixei os olhos, observando os corpos dos caçadores ainda quentes no chão. O cheiro adocicado do sangue misturado à fuligem de suas armas queimadas parecia formar uma névoa invisível entre eles.
— E qual é o sentido de matar sem fim? — murmurei. — A vida dos homens é curta, efêmera. O sangue deles é doce, mas desaparece em segundos. E o que sobra é o vazio.
O mentor ergueu a mão, como um professor diante de uma aluna inquieta.
— Você olha para baixo, Emma. Precisa aprender a olhar para cima. O sangue é apenas o meio. O verdadeiro poder está em moldar a história, em dirigir os homens como quem conduz um rebanho.
Ele caminhou ao meu redor, senti o frio de sua presença como um sopro de inverno na nuca.
— A Revolução que você tanto amou, essa chama de justiça, é apenas um ensaio. O mundo precisa de uma ideologia maior, um fogo que consuma nações inteiras, que pregue igualdade, mas que alimente o poder dos que souberem manipulá-la.
Emma levantou o rosto, intrigada.
— E qual ideologia seria essa?
Ele inclinou-se, sussurrando quase ao ouvido:
— Ainda não tem nome. Ainda não nasceu. Mas quando nascer, você a verá florescer. Ela prometerá liberdade, mas trará escravidão. Prometerá igualdade, mas dará poder a poucos. Será bela e terrível. E você, Emma Valcourt, será uma de suas sementes.
A promessa
Um arrepio percorreu-me a espinha.
Não era apenas a beleza hipnótica dele, mas a forma como suas palavras pareciam penetrar minha mente, como garras invisíveis.
— Eu… eu não quero ser apenas um instrumento — sussurrei. — Eu queria justiça. Eu queria que os fracos não fossem esmagados.
Ele ergueu o meu queixo com um dedo frio como pedra.
— Justiça? Não existe justiça. Só poder. Os fracos sempre serão esmagados, a menos que sejam conduzidos. E quem melhor para guiá-los do que nós, os imortais?
O meu olhar brilhou, dividido entre fascínio e repulsa.
Ele então fez a promessa:
— Lembre-se do acordo. Quando a missão chegar ao fim, quando a chama que hoje lhe ofereço incendiar o mundo, eu trarei seus pais de volta. Não como lembrança, mas como carne e sangue. Você os terá de novo.
Senti o coração inexistente pulsar como se quisesse romper o peito.
Os olhos arderam com lágrimas que nunca mais poderiam cair.
— Se mentir… — disse eu, com voz baixa e ameaçadora — eu o destruirei, mesmo que me leve junto.
Ele sorriu.
— Oh, minha doce Emma… a eternidade é longa. Descobrirá que não existem mentiras, apenas versões convenientes da verdade.
E, como veio, desapareceu na neblina, deixando apenas o eco de sua promessa e o frio cortante que impregnava a madrugada.
Reflexão final
Emma permaneceu sozinha no campanário, encarando o horizonte que clareava.
Logo precisaria se dissolver em sombra para sobreviver ao sol.
Mas agora, além do vazio, havia também uma centelha: a esperança impossível de rever os pais.
Ela sabia que aquilo podia ser uma armadilha.
Mas, em meio à eternidade, até mesmo uma mentira bem contada podia se tornar uma razão para continuar existindo.

Comentários