A Dona da Noite - Capítulo 8
Capítulo 8
O Nome do Abismo
A segunda noite chegou coberta de neblina. Paris parecia suspensa entre mundos — as luzes dos postes se dissolviam como fantasmas no ar úmido, e o som dos sinos das catedrais se espalhava como uma oração esquecida.
Elias Montgomery caminhava com passos firmes, mas o coração inquieto. Trazia consigo a sua inseparável companheira e escudo de proteção, a Bíblia sagrada.
No bolso, o pequeno caderno onde registrava suas anotações — e, em cada página, o nome dela surgia como uma obsessão: Emma Valcourt.
Ele a encontraria novamente no mesmo café da Rue des Écoles. Era tarde. As ruas estavam quase vazias. O vento trazia um cheiro metálico, como de ferro e chuva. Elias sentia algo diferente naquela noite — um pressentimento, uma gravidade no ar.
Quando empurrou a porta, ela já estava lá.
Emma o esperava sentada à mesa do canto, envolta em um manto negro que refletia a luz das velas. Os olhos dela, de um azul cortante, pareciam carregar oceanos inteiros. Havia algo de sublime e terrível em sua presença.
Quando ele se aproximou, ela sorriu — um sorriso lento, quase humano, mas frio como o luar.
— Veio mesmo, pastor Montgomery. — A voz dela era um sussurro, e mesmo assim preencheu todo o salão vazio.
— Prometi que voltaria, — respondeu ele. — E cumpro o que prometo.
Emma inclinou levemente a cabeça, como quem examina um mistério.
— A maioria dos homens não volta. O medo costuma ser mais forte do que a curiosidade.
— Não é curiosidade o que me traz aqui, — disse Elias, — mas propósito.
Ela pareceu interessada.
— Propósito... — repetiu, degustando a palavra como se fosse vinho. — Diga-me, pastor, o que um homem de fé busca em uma criatura como eu?
— A verdade, — respondeu ele. — E talvez, se for possível, a salvação.
Emma riu baixo. O som era belo e inquietante, como vidro se partindo.
— Salvação? — ela disse. — Essa palavra já não tem eco no meu mundo.
O pastor a observou com calma. Tudo que já ouvira de Emma no encontro anterior era absolutamente paradoxal, mas real.
— Então me conte um pouco mais sobre o seu mundo. Talvez ainda haja algo que não tenha se perdido.
Ela ficou em silêncio por alguns instantes, olhando para a vela que tremeluzia sobre a mesa. A chama se refletia em seus olhos, como se incendiasse por dentro um pedaço de memória.
— O nome dele era Lucien, — disse, por fim. — Lucien De Clairvaux.
Elias anotou, devagar.
— Francês?
— Francês por conveniência, — respondeu ela, sorrindo de modo sombrio. — Mas a verdade é que ele nasceu muito antes da França existir. Dizem que veio das ruínas de Cartago, que sobreviveu à destruição do império romano e se infiltrou entre as cortes da Europa como um deus esquecido.
Ela fez uma pausa, os dedos tocando o cálice diante de si.
— Quando o conheci, ele se fazia passar por um nobre revolucionário. Um homem belo, de olhar que atravessava a alma. Havia nele uma promessa impossível de resistir — a promessa de que o sofrimento teria fim. E quando falou de eternidade, eu acreditei que fosse liberdade.
Elias a escutava com atenção.
— E não era?
— Não, — respondeu ela, com os olhos marejados de sombra. — Era prisão. Lucien é o que os antigos chamariam de “portador da mentira”. Alimenta-se da esperança dos desesperados. Promete poder, mas entrega correntes. Cada um de nós, que bebemos de seu sangue, nos tornamos peças de um tabuleiro que ele controla há séculos.
— E qual era o objetivo dele? — perguntou Elias, sua voz se tornando mais firme.
— Dominar as almas, não os corpos, — disse Emma. — Lucien acreditava que a fé humana era a última fronteira do poder. Ele dizia que o verdadeiro império não era o dos reis, mas o das ideias. Foi ele quem me falou pela primeira vez sobre um sonho... uma doutrina... algo que surgiria séculos depois — o comunismo.
Elias empalideceu.
— Ele previu isso?
— Não previu. Inspirou. — A voz dela agora era um fio de veneno. — Ele semeou em mentes frágeis a semente da revolta, não pela justiça, mas pelo caos. Disse que um dia o homem acreditaria ser capaz de viver sem Deus. Esse seria o triunfo final.
O pastor baixou os olhos. Um calafrio percorreu-lhe a espinha.
— Então Lucien é...
— O próprio diabo? — ela o interrompeu. — Não sei. Talvez uma de suas faces. Talvez o eco do mal que sempre existiu em nós.
Por um momento, o silêncio reinou. A chama da vela se curvou, como se temesse o nome pronunciado.
Emma se inclinou para frente, e Elias pôde sentir o frio emanando dela, um frio que não vinha do corpo, mas da alma.
— Ele me enganou. Disse que, se eu cumprisse minha missão, traria de volta meus pais. Que eles caminhariam novamente sob o mesmo sol que os matou. Acreditei. Acreditei por séculos.
Ela riu, com expressão misteriosa.
— E veja o que me tornei. Um vulto que foge do dia. Uma assassina que degola para esconder a própria maldição.
Elias estendeu a mão, tocando levemente o pulso dela.
— Emma... o perdão é possível, mesmo para quem caminhou com as trevas.
Ela o encarou, surpresa.
— E o senhor acha que Deus perdoaria alguém que matou centenas, talvez milhares? Que se banhou em sangue e dançou sob corpos?
Elias respirou fundo.
— Deus não mede o passado pelo número de feridas, mas pela vontade de voltar para casa.
Os olhos dela se encheram de algo novo — não esperança, mas espanto.
— Voltar para casa... — repetiu. — Faz tanto tempo que não sei o que é isso.
O relógio da parede anunciou a meia-noite.
Elias se levantou devagar.
— Voltarei amanhã, — disse. — Ainda há muito que quero ouvir.
Emma hesitou.
— Talvez eu não esteja aqui amanhã.
— Estará, — respondeu ele, convicto. — Porque o sol ainda não te destruiu... e a graça ainda não te alcançou. Isso significa que o tempo da tua salvação ainda não acabou.
Ela o olhou como se estivesse diante de algo impossível.
E então, num gesto lento, pegou a mão dele e a levou ao rosto. Sua pele era fria como o mármore.
— Elias Montgomery, — sussurrou. — Se o seu Deus conseguir salvar até mesmo a mim... eu o seguirei.
E desapareceu na neblina, deixando no ar apenas o eco de seu perfume e a sensação de que o inferno, por um instante, havia chorado.

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