A Dona Da Noite - Capítulo 9
Capítulo 9
O Visitante da Meia-Noite
O quarto de Elias Montgomery cheirava a papel, café frio e velas derretidas.
A madrugada já se arrastava, e a caneta descansava sobre o caderno aberto — metade das páginas preenchidas com anotações sobre Emma Valcourt.
Cada palavra parecia pulsar, viva, como se o próprio sangue dela escorresse entre as linhas.
Elias sentia um peso na mente, um cansaço que não era físico. Era como se algo o observasse por trás das paredes.
Fechou os olhos. Rezou em silêncio. E, sem perceber, adormeceu.
O sonho começou com o som de sinos distantes e o farfalhar de asas negras.
Estava novamente em Paris, mas não a Paris moderna — e sim uma versão espectral, coberta por névoa e gritos apagados.
As ruas estavam vazias, e sobre elas pairava um cheiro de sangue e incenso queimado.
No centro de uma praça abandonada, havia uma guilhotina.
Debaixo dela, sentado em um trono feito de ossos, um homem o esperava.
Vestia um manto de veludo escuro e, quando sorriu, o ar pareceu congelar.
— Boa noite, Elias Montgomery.
A voz era suave, melodiosa, mas havia nela algo que perfurava o peito.
— Seja bem-vindo ao meu domínio.
Elias reconheceu de imediato quem era, sem precisar que se apresentasse.
— Lucien De Clairvaux.
O vampiro inclinou a cabeça num gesto de cortesia quase nobre.
— Vejo que Emma falou de mim. Fico lisonjeado.
Ele se levantou lentamente, descendo os degraus da guilhotina. O som de suas botas ecoava como trovão.
Os olhos — cinzentos, quase prateados — brilhavam como aço sob o luar artificial.
— Você é ousado, pastor, — disse Lucien. — Vem até mim com palavras de fé, acreditando que pode salvar uma criatura que pertence a mim há mais de dois séculos.
Elias manteve-se firme.
— Emma não pertence a você. Ela foi enganada.
Lucien sorriu.
— Enganada? Oh, meu caro... todos querem ser enganados. Ela me procurou. Chorava sangue e ódio. Eu apenas lhe ofereci o que o seu próprio Deus recusou: justiça imediata.
Ele se aproximou mais. O ar em torno dele tinha cheiro de vinho e de cemitério.
Elias tentou dar um passo para trás, mas seus pés pareciam presos ao chão.
— Você lhe prometeu devolver os pais, — disse o pastor. — Mas mentiu..
Lucien gargalhou — e o som era como metal se partindo.
— Mentira é uma palavra humana. Eu ofereci esperança, e ela a aceitou. O que mais é a fé, senão uma forma de esperança travestida?
Elias respirou fundo, tentando não sucumbir à sensação de frio que lhe subia pela coluna.
— A fé não é um truque. É uma aliança com a verdade.
Lucien arqueou uma sobrancelha.
— E o que é a verdade, Elias? Que o seu Deus criou homens que matam em nome Dele? Que ergueram fogueiras, cruzadas e inquisidores? Que pregaram a humildade enquanto usurpavam reinos?
A cada palavra, o tom do vampiro se tornava mais cortante.
— Diga-me, pastor... o que há de tão puro em uma fé que não salvou nem mesmo o seu Cristo da cruz?
O coração de Elias se acelerou, mas sua voz permaneceu firme.
— A cruz não foi derrota. Foi entrega. E foi por isso que Ele venceu.
Por um instante, o olhar de Lucien vacilou — apenas por um segundo.
Mas logo voltou a sorrir, com uma calma infernal.
— Você é fascinante, Elias. Tem uma mente afiada, quase poética. Eu poderia gostar de você.
O vampiro deu mais um passo e estendeu a mão.
As unhas longas e impecáveis reluziam.
— Venha comigo. Não como servo, mas como aliado. Juntos, poderíamos criar uma nova fé — uma fé sem culpa, sem limites, sem cruz. Emma seria apenas o início. O mundo ouviria a nossa voz e se curvaria diante de uma verdade mais doce... a da liberdade total.
Elias ergueu os olhos.
Havia ali fogo e temor, mas também convicção.
— Liberdade sem verdade é escravidão. E a sua promessa cheira a enxofre.
Lucien suspirou, decepcionado.
— Tão previsível. Vocês, homens de fé, são todos iguais. Lutam contra o escuro, mas precisam dele para existir. Sem o diabo, o que seria de vocês?
Elias se aproximou um passo.
— E sem Deus, o que restaria de você?
O silêncio se espalhou como um trovão contido.
Lucien o fitou por longos segundos — até que, de repente, sorriu de novo.
Mas agora havia raiva por trás do sorriso.
— Cuidado, pastor. — Sua voz agora era um sibilo. — Emma é minha criação. O sangue dela ainda canta o meu nome. Se ousar arrancá-la de mim, saboreará a morte.
Elias ergueu a Bíblia que trazia consigo no sonho — o mesmo exemplar que repousava em sua mesa na vida real.
O couro da capa queimava sob a luz etérea.
— Não temo a morte, — disse ele. — Temo a eternidade sem propósito. E é isso que você oferece.
Lucien deu um passo atrás. O ar crepitou, e o chão da praça se abriu em rachaduras incandescentes.
Das fendas, subiam gritos — lamentos de almas presas em chamas silenciosas.
O vampiro olhou em volta, o rosto agora transformado, os olhos vermelhos como brasas.
— Você não entende o que desafia! — rugiu. — Eu sou o que alimenta o ódio, o que sopra revoluções, o que escreve manifestos e destrói impérios! Sou o suspiro que precede a guerra!
Elias manteve o olhar fixo, e apenas murmurou:
— Mesmo assim, o Cordeiro venceu o dragão.
Um vento poderoso varreu a praça. As chamas se extinguiram. O trono de ossos desmoronou.
Lucien gritou — um grito que soava mais como o estalar de mil espelhos.
E então tudo se apagou.
Elias acordou suado, ofegante.
As velas ainda ardiam. A Bíblia estava aberta sobre o peito — e, no centro da página, uma única frase riscada por uma mão invisível:
> “Ela ainda é minha.” — L. de C.
O pastor fechou o livro com força.
Seu coração batia como um tambor de guerra.
Ele sabia que a batalha havia começado — não contra carne e sangue, mas contra um império de trevas que se alimentava de promessas quebradas. E, no fundo, uma certeza o consumia: Emma não era apenas uma alma perdida.
Era o campo de batalha entre Deus e o diabo.

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